O CÃO E SEUS DONOS
A crise do setor aéreo trouxe meu pai de volta às minhas lembranças. Recordo que, quando eu era ainda menino, costumava vê-lo no quintal de casa olhando para o céu cada vez que passava um Convair da Real Aerovias ou um Scândia da VASP.
Naqueles calmos tempos, voar era um luxo acessível a uns poucos e os vôos, raros. Cada vez que um Costellation da VARIG ou um DC-3 da Cruzeiro do Sul saía do chão, era a alegria de muitos paulistanos - inclusive eu - vê-los partir do então distante Aeroporto de Congonhas.
A caminho de Rio ou de plagas mais distantes, passavam já bem alto, mas perfeitamente identificáveis, sobre o bairro do Belenzinho, onde morávamos, e meu velho olhava-os encantado, sem entender como aqueles mostrengos de aço conseguiam se manter lá em cima.
É bem verdade que, não raro, um ou outro se espatifava no chão, mas não causava a celeuma que hoje enche por dias e dias os jornais escritos, falados e televisionados.
Naqueles idos anos cinqüenta, não existiam Agências Reguladoras, Infra-isto, Infra-aquilo, nem Ministério da Defesa (contra o quê?) e tudo se resolvia nos gabinetes.
Hoje, mudou. A aviação tornou-se um negócio digno de uma Máfia, tanto para quem opera, como quem a dirige e/ou fiscaliza. Um acidente tomas proporções de hecatombe e todos querem tirar o seu da reta jogando a culpa para o vizinho.
Não é de admirar, portanto, que apareça o nosso ilustre dirigente máximo dizendo que a crise atual é uma metástase. Tudo bem; vamos admitir que ele até conheça o significado da palavra e, conseqüentemente, das medidas que se devam tomar em tais casos.
No entanto, ele se esmera em se superar na arte de dizer asneiras e chega ao ponto de afirmar que o setor aéreo se transformou num cão com vários donos; ele passa fome porque cada um deles deixa para o outro o dever de alimentá-lo.
Ora, direis, quem nomeou tantos donos para cuidar desse cão solitário que, aliás não está tão sozinho assim? Basta ver as incontáveis nomeações que vêm se sucedendo neste (principalmente) e em outros governos. A questão agora é essa: estão nomeando "donos" para setores que envolvem vidas humanas, sem que tenham competência para gerir isso. O resultado aí está.
E, voltando ao assunto da metástase, é bom ele não esquecer que, na medicina, muitas vezes isso exige medidas radicais como uma amputação, por exemplo. Em outros, leva à morte.
A metáfora é dura, porém muito mais real do que aparenta.
Escrito por carlos bruni às 22h30
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