Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Cadernos da Bélgica
 Escritos Esparsos
 Fina Flor
 Âncoras e Asas
 Caminhos Literários


 
 
CAMINHOS DE PAPEL


MEU PAI E O OUTRO

 

 

Profissionalmente, talvez ambos pudessem ser iguais.  

Meu pai era torneiro-mecânico e o outro também.    Cada um lutava por alguma coisa e, no que me diz respeito, sei pelo que meu pai lutava.   O que ele me deixou de herança começou a se enraizar em minha consciência durante a infância e, eu diria, a partir de um episódio gravado dentro de mim até hoje.

Contava eu com uns dez ou onze anos quando, certa vez, fui à padaria perto de casa para comprar pão.   Lá, encontrei no chão uma nota de cem cruzeiros.   Apanhei-a imediatamente e levei-a para casa entregando-a a meu pai.

Para ele, modesto operário, aquilo era um pequeno tesouro que viria reforçar seu magro ordenado.   Entretanto, pegando-me pela mão voltamos àquele local onde ele indagou se alguém havia perdido dinheiro por ali.   Ninguém se apresentou reclamando algum valor, fato esse que, por si só, já seria digno de registro.

Essa sua atitude, que com o tempo vim a entender melhor, foi o que posso chamar de início de minha formação moral, da qual me orgulho, principalmente por tê-la transmitido a meus filhos.

Recentemente, porém, li nos jornais que “aquele outro”, agora ocupando a presidência da República, brincou quando da posse de seus ministros que sentia pena deles por se sacrificarem em seus novos cargos, devido passarem a receber apenas oito mil reais de salários (obviamente, as mordomias e prestígio decorrentes de suas posições não contam).

Não satisfeito com sua falta de sensibilidade, algo comum em sua vida política, ainda teve o desplante de dizer que era o torneiro-mecânico mais bem pago do país.  Em outras palavras, azar o deles, ministros, que não souberam escolher o caminho certo.

Meu pai, humilde torneiro-mecânico, soube fazê-lo com dignidade.

Esse outro, pode dizer a mesma coisa?

 

 



Escrito por carlos bruni às 23h50
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ ver mensagens anteriores ]