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CAMINHOS DE PAPEL


DESISTIR?

 

Às vezes, tenho vontade.

Quando paro para pensar, porém, vejo que não dá.   Por mais percalços que encontre, não dá para ficar sentado vendo as coisas acontecerem. 

Quando ocorreu o assassinato do menino João Hélio Fernandes, a comoção foi geral e duvido que alguém tenha ficado imune ao acontecimento.  A repercussão que tal barbárie alcançou deveria ser o começo de uma reação sempre crescente a esse estado de coisas.

Eu, dentro de minhas poucas possibilidades, lancei um protesto isolado colocando uma fita preta no carro e, ato contínuo, passando isso para que pudesse via e-mails e textos no blog e no orkut.  Senti até uma satisfação incipiente a ver que o e-mail, após muitas voltas pela Net voltou a mim, não como resposta, mas repassado por alguém que o recebeu de outro, que o recebeu de outro e assim por diante.

Mudou alguma coisa?   Não, a violência só recrudesceu e fez mais vítimas: a menina Priscila, a garota Alana, a professora baleada na porta da escola, os policiais mortos no Rio, tudo isso alimentado com notícias degradantes como a falsa impressão de que o Congresso Nacional finalmente começaria a se mexer (as iniciativas naquela Casa já cairam na modorra de sempre).  Não bastasse isso e ainda me aparece o Departamento de Estado norte-americano com um absurdo relatório sobre as mortes causadas por policiais no Brasil. 

Isso mexe com meus nervos; minha mulher já me disse que devo parar de ouvir o noticiário do rádio (hábito meu durante o café da manhã) e que joga sobre a mesa os acontecimentos policiais aos borbotões.

Devo realmente desistir?   Com que olhos eu iria encarar de frente meus filhos e meus netos?



Escrito por carlos bruni às 22h21
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O TIME

           

 

           Minha mãe nem imaginava, mas foi a escolhida.   Nosso time de futebol, formado pelos garotos da rua comprara,  às custas de muito sacrifício, um jogo de camisas.  Era um time de pré-adolescentes sem dinheiro e com muito amor à bola.   Tanto amor que cada um levava seu calção e seu par de meias, num colorido que destoava totalmente das camisas.  

            Mas éramos um time de futebol.   Já podíamos marcar jogos em campos de terra com traves e linhas de cal.  

            E todo time  que sua a camisa, precisa de alguém que as coloque em ordem para o jogo seguinte, e eu cheguei em casa com as onze peças imundas pedindo que minha mãe as lavasse.

            A bronca foi terrível mas, mãe é mãe e ela acabou concordando em lavar o material, acabando também por fazê-lo nas semanas seguintes.

            Dava gosto em ver as camisas dependuradas no varal, escorrendo gotas que simbolizavam o suor das batalhas disputadas.

            Batalhas, é bom que se diga, na maioria das vezes perdidas, pois se nos sobrava vontade, faltava categoria e éramos surrados impiedosamente por times geralmente com moleques maiores.

            O sonho durou algum tempo, poucos meses, mas era meu orgulho ver minha mãe torcendo aqueles onze panos listrados de preto e amarelo e depois dependurando-os no varal do quintal.   No meio de roupas íntimas,  macacão de trabalho de meu pai, toalhas e panos de prato, havia espaço para esse sonho que lentamente foi se diluindo em água e sabão. 

 

 



Escrito por carlos bruni às 22h03
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