Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Cadernos da Bélgica
 Escritos Esparsos
 Fina Flor
 Âncoras e Asas
 Caminhos Literários


 
 
CAMINHOS DE PAPEL


TOM ZÉ ESCLEROSOU?

"Havia aulas no largo São Francisco quando os invasores chegaram. Eles não obrigaram ninguém a deixar o prédio, mas um show do cantor Tom Zé e o barulho da manifestação impediram a finalização das aulas. O grupo fez uma barricada com móveis para impedir o trânsito na passarela que liga os dois prédios da faculdade."


Esse é o trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo, de ontem, a respeito da invasão da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, por integrantes da UNE, MST e outros.
Será que entendi direito?   Tom Zé foi até lá para se prestar solidariedade a arruaceiros?  Esse é o meio de reivindicar alguma coisa, mesmo por elementos da UNE (que recebe subvenções do Governo Federal) e do MST (que já provou ser um bando de arruaceiros travestidos de desprotegidos em luta por um pedaço de terra?
Nem vou falar mais sobre essa duas entidades e outras que lá estiveram, conhecidas sobejamente por seu sonho de transformar esta terra numa cópia borrada dos reinados de Hugo Chaves e Fidel.  
O que me deixa admirado e ao mesmo tempo decepcionado é ver Tom Zé, que sempre primou pela contestação inteligente e com alvos que merecem toda sua crítica, apoiar movimentos ditos "populares", mas que no fundo espelha a ideologia que querem implantar no Brasil, à base da porrada e discursos pseudo-populares.
Tom Zé nos deve uma explicação.



Escrito por carlos bruni às 18h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Da série "Me enrola que eu gosto"

"O Leão está mais atento. Guloso, não. Está cumprindo suas prerrogativas constitucionais", afirmou Paulo Ricardo de Souza Cardoso, secretário-adjunto da Receita Federal. Para saber se caiu na malha fina, o contribuinte deve acessar o site da Receita Federal.

 

Só para chatear:   isso vale para todos?



Escrito por carlos bruni às 16h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



O CÃO E SEUS DONOS

 

A crise do setor aéreo trouxe meu pai de volta às minhas lembranças.   Recordo que, quando eu era ainda menino, costumava vê-lo no quintal de casa olhando para o céu cada vez que passava um Convair da Real Aerovias ou um Scândia da VASP.

Naqueles calmos tempos, voar era um luxo acessível a uns poucos e os vôos, raros.   Cada vez que um Costellation da VARIG ou um DC-3 da Cruzeiro do Sul saía do chão, era a alegria de muitos paulistanos - inclusive eu - vê-los partir do então distante Aeroporto de Congonhas.

A caminho de Rio ou de plagas mais distantes, passavam já bem alto, mas perfeitamente identificáveis, sobre o bairro do Belenzinho, onde morávamos, e meu velho olhava-os encantado, sem entender como aqueles mostrengos de aço conseguiam se manter lá em cima.

É bem verdade que, não raro, um ou outro se espatifava no chão, mas não causava a celeuma que hoje enche por dias e dias os jornais escritos, falados e televisionados.

Naqueles idos anos cinqüenta, não existiam Agências Reguladoras, Infra-isto, Infra-aquilo, nem Ministério da Defesa (contra o quê?) e tudo se resolvia nos gabinetes.

Hoje, mudou.   A aviação tornou-se um negócio digno de uma Máfia, tanto para quem opera, como quem a dirige e/ou fiscaliza.   Um acidente tomas proporções de hecatombe e todos querem tirar o seu da reta jogando a culpa para o vizinho.

Não é de admirar, portanto, que apareça o nosso ilustre dirigente máximo dizendo que a crise atual é uma metástase.   Tudo bem; vamos admitir que ele até conheça o significado da palavra e, conseqüentemente, das medidas que se devam tomar em tais casos.

No entanto, ele se esmera em se superar na arte de dizer asneiras e chega ao ponto de afirmar que o setor aéreo se transformou num cão com vários donos; ele passa fome porque cada um deles deixa para o outro o dever de alimentá-lo.

Ora, direis, quem nomeou tantos donos para cuidar desse cão solitário que, aliás não está tão sozinho assim?   Basta ver as incontáveis nomeações que vêm se sucedendo neste (principalmente) e em outros governos.  A questão agora é essa:  estão nomeando "donos" para setores que envolvem vidas humanas, sem que tenham competência para gerir isso.    O resultado aí está.

E, voltando ao assunto da metástase, é bom ele não esquecer que, na medicina, muitas vezes isso exige medidas radicais como uma amputação, por exemplo.   Em outros, leva à morte.

A metáfora é dura, porém muito mais real do que aparenta.

 

 

 

 

 



Escrito por carlos bruni às 22h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



CONHEÇA A ANAC

AGÊNCIA

NACIONAL

DE

AJUDA

AOS

COMPANHEIROS

  



Escrito por carlos bruni às 21h20
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



PASSANDO DOS LIMITES

Vou começar este novo tópico com uma única frase:
"VÁ TOMAR NO C..."

Grosseria minha? Vá lá. Que seja. Mas o que se pode dizer diante dessa nova mania imposta por certa música (eu disse música?), onde a letra diz explicitamente para você ir tomar naquele lugar.
Outro dia, foi Jô Soares, dito um respeitável comediante, escritor, enfim, um multimídia, a cantar em seu programa essa execrável letra em vários idiomas,rítmos e gênero de música.
Mais recentemente, foi a loirinha Eliana, ex-apresentadora de programas infantis e que tem um programa na TV dos bispos da Igreja Universal, aparecer na telinha em uma gravação feita num teatro, cantando sem constrangimento essa "música".
Isso tudo para não falar nos sessenta mil acessos diários ao orkut e no Youtube à procura dessa obra da indignidade humana.
Serei eu intransigente? Um moralista carcomido pelo tempo? Nada disso.   Também falo meus palavrões.  Pode ser num momento de raiva, num desabafo ou mesmo num bate papo informal entre amigos.  No entanto, fazê-lo de forma gratuita, apenas porque virou a "onda da hora", já é outra história.  Não foram esses os valores que meu pai me passou e não me vergonho deles. Podem me chamar de antiquado, fóssil ou morto-vivo. No país do Renan e do Roriz, fico com minha dignidade.
excluir


Escrito por carlos bruni às 21h12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



AVENIDA DANÇAS

 

Eu ainda estava praticamente saindo das calças curtas para arriscar uns passos na ansiada adolescência e, por serem outros os tempos, podia andar pela capital paulista sem maiores sustos e descobrir seus inúmeros segredos.
Ao passar pela avenida Ipiranga, que ainda não abrigava novos baianos, ficava fascinado com os letreiros e cartazes do Avenida Danças, nas imediações dos saudosos Parreirinha e Expresso Luxo. Este com suas enormes limusines que faziam os sessenta quilômetros entre São Paulo e Santos em rapidíssimas duas horas.
Mas era na casa de danças que se concentrava minha atenção. Em meio a cartazes anunciando o jovem e promissor crooner, Agostinho dos Santos, e a animada orquestra de Osmar Milani, eu só me detinha diante dos que apresentavam as chamadas taxi-girls, moças de boa conduta que dançavam profissionalmente naquele lugar.
Nunca pus os pés lá dentro, é verdade. Não tinha idade, não tinha dinheiro e nunca tive coragem de encarar as moçoilas que, segundo diziam, picotavam cartões a cada dança concedida.
Os anos se passaram, Caetano cantou e se desencantou com a Ipiranga, as meninas dos cartões deram lugar a outras que dispensavam a burocracia para ganhar a vida. Nos anos modernos, são os personal dancers que comandam os passos pelos salões.
Hoje as mulheres são maioria, mas quem sabe naqueles também poderiam ser; caso não tivessem que ficar trancadas em casa enquanto os maus pais de boas famílias caiam na boemia e nos braços das profissionais de dança. Agora tudo é diferente: elas deixaram o lar e o cestinho de costura e também querem se divertir.
Nos atuais salões de baile, falando daqueles onde ainda se dança de rosto colado, além de maioria, boa parte delas chega desacompanhada. Seja porque o marido não quis ir, seja porque não têm companheiro, o fato é que elas chegam e esperam.
Esperam porque os machos estão em retração. Aguardam para serem tiradas para dançar, o que significa uma verdadeira loteria no salão. Com olho clínico, os organizadores desses eventos passaram a contratar cavalheiros — também não sei dizer se insuspeitos ou não — para tirar as damas em eterna espera.
Chamá-los de taxi-boys soaria estranho e o nome de personal dancer, ainda que incorreto, é mais moderno. Não há necessidade de se picotar cartões e todos ficam satisfeitos. Não interessa às damas o nome ou a denominação dada aos dançarinos. Também não importa a ponta do torturante band-aid em seus calcanhares. O que vale mesmo são dois pra lá, dois pra cá.



Escrito por carlos bruni às 23h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Croniquinha

A crônica abaixo foi escrita no comecinho do horário de verão, no ano passado.  Continua válida para os próximos verões, a julgar pela cara do país.



Escrito por carlos bruni às 22h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



CARTA A JORGE BENJOR

  

 

Meu prezado Jorge

 

Você sabe que não gosto de escrever cartas (aliás, nem sei escrever coisa nenhuma que preste), mas não posso deixar de lhe dirigir estas mal traçadas linhas.

Não quero encher muita lingüiça, mas como deixar de mencionar um fato ocorrido comigo logo cedo, nesta ensolarada segunda-feira?

Fui a uma agência dos Correios, aqui perto de casa e após despachar as cartas, entreguei uma nota de 10 para a atendente que, com um sorriso estupidificado me perguntou se poderia dar o troco em selos (coisinha de setenta centavos), pois o cofre ainda estava fechado, já que havia se iniciado o horário de verão e o timmer que permitiria sua abertura ainda não havia sido acertado.

Como não passava das nove e quinze, meus mascotes preferidos, tico e teco, ainda estavam dormindo, e por isso não atinei com o fato de os acertos do mecanismo não terem sido feitos antes e não depois da implantação de tão salutar medida que é esse tal horário de verão.

À revelia de meus dois amiguinhos, concluí que tal medida havia sido introduzida de supetão e todos fomos pegos de surpresa.

Imagino que outros acontecimentos ocorreram por todo o nosso país tropical, levando-me, inclusive, a divagar sobre hipotéticos fatos que poderiam mudar a História, mas que não aconteceriam devido ao horário de verão ser esfregado na nossa cara, assim sem mais nem menos.

Você já pensou, meu prezado Jorge, se um terrorista da Al Qaeda resolvesse explodir uma bomba-relógio no Congresso Nacional, logo numa (acho que já disse isto) ensolarada segunda-feira?  Ou ele a explodiria com uma hora de atraso em relação a seus planos, ou explodiria junto por não saber a hora oficial.   De qualquer maneira, os prejuízos seriam só materiais, pois acertar alguém trabalhando naquela proba Casa logo numa segundona de manhã?  Fala sério, meu irmão!

Escrito por carlos bruni às 22h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Também me ocorreu a possibilidade de o Ricardão passar logo cedo na casa da amásia para dar uma rapidinha e dar de cara com o maridão saindo para o trabalho, defasado porque também fora pego de calças curtas (refiro-me ao horário, é claro).

Não temos programa espacial que preste, ou iríamos ter uma bruta confusão entre o controle de vôo e a cabine da cápsula espacial:

  Catso!   Já são nove e dez;  esta merda vai subir ou não?

  Cala a boca, palhaço!   Já temos todos os carimbos, mas antes das dez não sobe porcaria nenhuma.

Pois é, meu amigo.   Não entendo até agora como você não deu  àquela musica  o nome de País surreal. 

Manda um abraço pra Teresa, pras crianças e vê se aparece prumas cervejinhas.

 

Um abraço  do sempre amigo

Carlos

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por carlos bruni às 22h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



O FOGO DO INFERNO

Vou queimar nos quintos do infernos, mas não me calo.

Vocês sabiam que a comitiva Papal vem aí com 300 elementos?  Isso explica as reportagens de TV estarem mostrando a comida que servirá aos glutões (incluindo-se aí os convidados, autoridades, etc.).   Isso é que é demostração de humildade da Igreja.

 



Escrito por carlos bruni às 21h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



O QUE MUDARÁ?

 

Dentro de poucos dias, teremos a visita de Sua Santidade, o Papa Bento XVI.  Como lider espiritual de milhões de pessoas e chefe de Estado reconhecido pelo governo brasileiro, ele será recebido com honras e respeito que lhe são devidos.

Até aí, morreu Neves.   As circunstâncias é que devem ser analisadas.

O Papa Ratzinger, em São Paulo, ficará hospedado no Mosteiro de São Bento, situado no largo do mesmo nome.  Quem conhece, como eu, o local fica imaginando como seria a visita se as autoridades paulistanas descurassem de maquiar aquele lugar.   Ao lado da igreja fica a rua Florêncio de Abreu e, mais exatamente na esquina da praça, o que se vê é o que há de mais degradante numa sociedade.  O cenário, talvez seja exagero meu, nos remete a algum lugar da periferia de Bombaim ou Calcutá; são párias de todos os tipos: mendigos na calçada, um horrível cheiro de urina e fezes (já que é ali que eles passam a noite), são camelôs às dúzias (muitos vendendo ferramentas que as lojas da mesma rua vendem - jogos de chaves, furadeiras, lixadeiras, etc), sem pagar impostos - aliás, não são poucos os ambulantes que expõem na rua mercadorias das próprias lojas, fugindo ao pagamento de impostos.  O cenário não termina aí: são consumidores de crack, bêbados, enfim, todos vivendo sob este céu que um dia  há de nos engolir.

O Papa irá também à Catedral de São Paulo.  Uma autoridade já declarou que nesse dia os mendigos, desocupados e assemelhados, serão retirados dali e a praça da Sé, lavada, o que deverá ser feito também no largo de São Bento.

Muito bem.  Agora, a pergunta que não quer calar: e depois que o representante de Deus for embora o que mudará?

Nada.  A vida voltará a ser a mesma, o lumpesinato retomará seu espaço, nós nos calaremos e fingiremos que não temos nada a ver com isso.

E, na falta de coisa melhor, que Deus nos abençoe.  Ou perdoe, se merecermos.



Escrito por carlos bruni às 22h58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



MEU PAI E O OUTRO

 

 

Profissionalmente, talvez ambos pudessem ser iguais.  

Meu pai era torneiro-mecânico e o outro também.    Cada um lutava por alguma coisa e, no que me diz respeito, sei pelo que meu pai lutava.   O que ele me deixou de herança começou a se enraizar em minha consciência durante a infância e, eu diria, a partir de um episódio gravado dentro de mim até hoje.

Contava eu com uns dez ou onze anos quando, certa vez, fui à padaria perto de casa para comprar pão.   Lá, encontrei no chão uma nota de cem cruzeiros.   Apanhei-a imediatamente e levei-a para casa entregando-a a meu pai.

Para ele, modesto operário, aquilo era um pequeno tesouro que viria reforçar seu magro ordenado.   Entretanto, pegando-me pela mão voltamos àquele local onde ele indagou se alguém havia perdido dinheiro por ali.   Ninguém se apresentou reclamando algum valor, fato esse que, por si só, já seria digno de registro.

Essa sua atitude, que com o tempo vim a entender melhor, foi o que posso chamar de início de minha formação moral, da qual me orgulho, principalmente por tê-la transmitido a meus filhos.

Recentemente, porém, li nos jornais que “aquele outro”, agora ocupando a presidência da República, brincou quando da posse de seus ministros que sentia pena deles por se sacrificarem em seus novos cargos, devido passarem a receber apenas oito mil reais de salários (obviamente, as mordomias e prestígio decorrentes de suas posições não contam).

Não satisfeito com sua falta de sensibilidade, algo comum em sua vida política, ainda teve o desplante de dizer que era o torneiro-mecânico mais bem pago do país.  Em outras palavras, azar o deles, ministros, que não souberam escolher o caminho certo.

Meu pai, humilde torneiro-mecânico, soube fazê-lo com dignidade.

Esse outro, pode dizer a mesma coisa?

 

 



Escrito por carlos bruni às 23h50
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



ENTREVISTA COM O MORTO

 

- Como é seu nome?
- Luiz Carlos Cordeiro, seu criado.
- Quando foi que você morreu?
- Ah, foi em 91, não lembro direito o dia, não, senhor.
- E que idade você tinha nessa época?
- Trinta anos, doutor.
- E como aconteceu?
- Foi num assalto, moço. Eu trabalhava de cobrador de ônibus, aconteceu o assalto. Eram três elementos; entraram no ônibus, pegaram o dinheiro da gaveta e me deram um tiro no peito.
- Pegaram os assassinos?
- Que eu saiba, pegaram não, doutor. Aliás, quando isso acontecia, e acontece ainda hoje, o caso logo caia no esquecimento.
- Você parece um tanto revoltado com isso. Estou certo?
- Está sim, doutor. Muito certo.
- Por quê?
- Não sei se o senhor se lembra, nesse ano, mais ou menos na época em que eu morri, aconteceu aquele negócio que chamaram de “massacre do Carandiru”.
- E o que tinha a ver com seu caso?
- Com meu caso, nada, seu doutor, mas com o que aconteceu em volta daquele bafafá todo, sim.
- Me explique.
- Quando eu morri, meus colegas fizeram uma paralisação de protesto, seguraram os ônibus na garagem, veio a imprensa, mas não deu em nada, não.
- Continuo não entendendo.
- Quando aqueles cento e onze infelizes foram mortos na penitenciária, pareceu que o mundo ia cair. A jornais deram manchete por vários dias. O pessoal desse tal de Direitos Humanos botou a boca no mundo; veio até uma dona, gringa, de um tal de Humans Rights Watch, de narizinho empinado, que queria porque queria, saber do que tinha acontecido. Teve até um padreco importante, acho que um tal de dom Evaristo Arns, que correu pra rezar uma missa para os mortos, acompanhado de outros doze padres, na Catedral da Sé.
- E isso te deixa revoltado?
- E não é pra deixar, seu doutor? Eu tive uma missazinha, sim, que meus colegas se cotizaram e mandaram rezar lá em São Mateus, mas não teve jornalista, político, nem filho da puta nenhum pra prestar solidariedade.
- E das comissões de Direitos Humanos? Apareceu alguém?
- Nem aquela hora, nem em qualquer outra.
- Você tinha família?
- Sim, eu era casado e tinha dois filhos pequenos.
- E que acontece com eles?
- Até onde eu sei, não foram procurados por ninguém pra receber qualquer ajuda que fosse.
- Por que você resolveu desabafar agora?
- Veja bem, doutor. Aqui no limbo onde me encontro, a gente tem notícia do que acontece por aí. E a gente fica puto da vida com o que acontece?
- O quê, por exemplo?
- Esse tal de Direitos humanos.... serve pra quê?
- Bem, para defender o cidadão contra as injustiças, proteger aqueles ameaçados pelos bandidos... coisas assim.
- E também pra proteger alguns desses bandidos, né, doutor?
- Acho que não é bem assim.
- Não é assim, porra nenhuma. Pensa que nós, os mortos, na sabemos das coisas? Acha que nós não vemos que estão fazendo dessa Suzanne Ritch... Ritchte.. sei lá que nome de merda, uma coitadinha? E esse tal de Pimenta das Neves? Dá um tiro na cabeça da namorada caída no chão e fica solto por aí como se tivesse matado um cão. Ora, doutor...
- Bem, devo admitir que certos casos também me deixam meio cabreiro.
- Pois o senhor deveria ficar cabreiro por inteiro. O senhor acha justo que um bandidão daqueles da pesada sejam tratados a pão-de-ló? Que um promotor possa matar um cidadão com dez tiros e continuar solto? E trabalhando? Que o mandante dos assassinos daquela freira do Pará saiam da cadeia?
- Bem, a Justiça é um pouco lerda e muito burocrática.
- Justiça? Não me faça rir. Quando uma quadrilha de bandidos, daqueles bem fodidos, é aniquilada pela polícia, a primeira coisa que fazem é investigar se houve excessos nessa ação. Isso, mesmo se comprovando que os bandidos estavam armados até os dentes e passeavam pela cidade como se fosse um filme de faroeste. Lembra daquele caso da Castelinho? Um ônibus lotado de bandidos armados até os dentes, rumando para Sorocaba – não era pra fazer compras, não – foi interceptado pela polícia e no frege, todos foram mortos. Quem apareceu pra criticiar? Os mesmos demagogos de sempre, exigindo investigação, justiça, os escambau. Ninguém se importou em procurar saber o que eles, os meliantes, iam fazer, onde e com quem.
- Nesse ponto você...
- Peraí, doutor, eu ainda não acabei. Quando a polícia reagiu, depois daqueles atentados em São Paulo, esses defensores dos tais de Direitos Humanos, ficaram pissudos querendo saber se houve excesso. Bom, tenho de admitir que pode ter havido, sim, só que eu não vi nenhum membro dessas comissões ir visitar as famílias dos policiais mortos. Direitos Humanos só de um lado? Ora, pode parar...
- A violência gera violência. Você acha certo?
- O que eu acho, doutor, é que ela nem deveria começar. Mas, pelo andar da carruagem acho que ainda vamos ver muito sangue correr. Quem viver verá. Quem viveu, também. Não tá vendo os quatro agentes penitenciários assassinados nos últimos dias? Com Copa do Mundo e tudo.
- Pelo seu tom, parece achar que vem mais coisa por aí.
- Ah, ah, ah, ah… o senhor disse “parece”? O senhor ainda não viu nada.
- Uma palavrinha final.
- Um alô pra minha mulher e meus dois filhotes. Não sei o que aconteceu com eles, ninguém sabe. Ninguém se importou. Ninguém mesmo.



Escrito por carlos bruni às 20h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



DESISTIR?

 

Às vezes, tenho vontade.

Quando paro para pensar, porém, vejo que não dá.   Por mais percalços que encontre, não dá para ficar sentado vendo as coisas acontecerem. 

Quando ocorreu o assassinato do menino João Hélio Fernandes, a comoção foi geral e duvido que alguém tenha ficado imune ao acontecimento.  A repercussão que tal barbárie alcançou deveria ser o começo de uma reação sempre crescente a esse estado de coisas.

Eu, dentro de minhas poucas possibilidades, lancei um protesto isolado colocando uma fita preta no carro e, ato contínuo, passando isso para que pudesse via e-mails e textos no blog e no orkut.  Senti até uma satisfação incipiente a ver que o e-mail, após muitas voltas pela Net voltou a mim, não como resposta, mas repassado por alguém que o recebeu de outro, que o recebeu de outro e assim por diante.

Mudou alguma coisa?   Não, a violência só recrudesceu e fez mais vítimas: a menina Priscila, a garota Alana, a professora baleada na porta da escola, os policiais mortos no Rio, tudo isso alimentado com notícias degradantes como a falsa impressão de que o Congresso Nacional finalmente começaria a se mexer (as iniciativas naquela Casa já cairam na modorra de sempre).  Não bastasse isso e ainda me aparece o Departamento de Estado norte-americano com um absurdo relatório sobre as mortes causadas por policiais no Brasil. 

Isso mexe com meus nervos; minha mulher já me disse que devo parar de ouvir o noticiário do rádio (hábito meu durante o café da manhã) e que joga sobre a mesa os acontecimentos policiais aos borbotões.

Devo realmente desistir?   Com que olhos eu iria encarar de frente meus filhos e meus netos?



Escrito por carlos bruni às 22h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



O TIME

           

 

           Minha mãe nem imaginava, mas foi a escolhida.   Nosso time de futebol, formado pelos garotos da rua comprara,  às custas de muito sacrifício, um jogo de camisas.  Era um time de pré-adolescentes sem dinheiro e com muito amor à bola.   Tanto amor que cada um levava seu calção e seu par de meias, num colorido que destoava totalmente das camisas.  

            Mas éramos um time de futebol.   Já podíamos marcar jogos em campos de terra com traves e linhas de cal.  

            E todo time  que sua a camisa, precisa de alguém que as coloque em ordem para o jogo seguinte, e eu cheguei em casa com as onze peças imundas pedindo que minha mãe as lavasse.

            A bronca foi terrível mas, mãe é mãe e ela acabou concordando em lavar o material, acabando também por fazê-lo nas semanas seguintes.

            Dava gosto em ver as camisas dependuradas no varal, escorrendo gotas que simbolizavam o suor das batalhas disputadas.

            Batalhas, é bom que se diga, na maioria das vezes perdidas, pois se nos sobrava vontade, faltava categoria e éramos surrados impiedosamente por times geralmente com moleques maiores.

            O sonho durou algum tempo, poucos meses, mas era meu orgulho ver minha mãe torcendo aqueles onze panos listrados de preto e amarelo e depois dependurando-os no varal do quintal.   No meio de roupas íntimas,  macacão de trabalho de meu pai, toalhas e panos de prato, havia espaço para esse sonho que lentamente foi se diluindo em água e sabão. 

 

 



Escrito por carlos bruni às 22h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ ver mensagens anteriores ]